Primeiro Conto! 13 / março / 2008
Posted by Fábio in Contos.trackback
Como eu havia prometido, essa é o primeiro conto infantil reescrita por mim. A história que eu usei como base está no site http://www.qdivertido.com.br/. Aos pais, é um ótimo site para suas crianças. A primeira história que eu escolhi foi a da Cinderela. Ah, aceito sugestões de como deveria se chamar essa série.
Vamos a ela:
Cinderela (1ª parte)
Há muito tempo, a esposa de um rico comerciante adoeceu gravemente. Depois de alguns dias agonizando e sentindo que estava na hora de bater as botas, ela chamou sua única filha e disse:
- Filha, o resultado da Megasena será 14-27-32…
- Mãe, a senhora está delirando, não inventaram a Megasena ainda… mas deixa eu pegar um papel para anotar, vai que…
- Tá, deixa eu falar algo mais profundo: nós colhemos o que plantamos.
- É óbvio, mãe!! Dããããã! Queria plantar milho e colher batatas?
- Filhinha, deixa a mamãe te explicar: falei isso no sentido figurado, eu quis dizer que se for boazinha, Deus te ajuda. Se for mázinha, Deus vai botar direitinho no seu…
Ela não teve tempo de terminar a frase. Fechou os olhos e morreu.
A filha ia todos os dias visitar o túmulo da mãe, ficava ao lado do pub preferido dela.
Veio o inverno, e a neve cobriu o túmulo com seu alvo manto.
Veio a primavera, e o sol derreteu tudo.
Foi então que o viúvo resolveu:
- Chega de putaria.
Ele se casou outra vez. A nova esposa trouxe duas filhas, ambas bem gostosas com seus 85kg (na época não existiam mulheres malhadas). Elas eram metidinhas à besta, tinham os homens aos seus pés e morreram de inveja dos olhos azuis da filha do comerciante, que era uma loirinha sequinha, mas tinha um belo rosto. Como o pai dela era um tremendo bundão, que adorava ficar fumando um “bagulho maneiro” e vivia no mundo da Lua, a vida ficaria uma merda para ela.
- Essa imbecil não vai ficar no nosso quarto, ela tem piolho!
- Manda ela para a cozinha, ela tem espírito de empregada doméstica!
Tiraram-lhe o vestido bonito, confeccionado pelo tatatatatataravô do Gianni Versace, e obrigaram a vestir outro, uma roupinha comprada no brechó da esquina do castelo, uma roupa velha e desbotada. Tiraram também seus sapatos e deram para ela um par de tamancos, daqueles modelos sem estampa, totalmente sem-graça, nada comparados aos modelos atuais da Andarella.
- Vejam só como está toda enfeitada, a orgulhosa princesinha de antes! – disseram a rir, levando-a para a cozinha.
A partir de então, ela foi obrigada a trabalhar, da manhã à noite, nos serviços mais pesados. Era obrigada a se levantar de madrugada para ir buscar água e acender o fogo. Só ela cozinhava e lavava. Mas o pior de tudo era mesmo ser a pedicure da madrasta, com aquele pé fedorento, gordo e inchado. Exausta de tanto trabalhar, a jovem não tinha onde dormir e era obrigada a se deitar na cozinha, sobre as cinzas do fogão. Como ela andava suja e cheia de cinza, já que o povo não era muito chegado em um banho, só a chamavam de Cinderela (do inglês cinders, cinzas).
Um dia, o pai resolveu ir a uma feira no castelo, uma espécie de shopping medieval. Antes de sair, perguntou às enteadas o que elas queriam.
- Vestidos bonitos e pérolas!
- E você, Cinderela, o que queres? – o pai resolveu zoar com a cara da filha também, já que nem ele lembrava mais o nome dela. Pai gente boa toda vida…
- No caminho de volta, pai, quebre o primeiro ramo que bater no seu chapéu e traga-o para mim.
- Ramo? Você quer dizer uma maconha? – perguntou o pai.
- Que isso?
- Esquece…
“Ela deve estar usando algo mais pesado”, pensou o pai antes de sair. Ele partiu para a feira, comprou vestidos e pérolas, e na volta, quebrou o primeiro ramo que bateu na cabeça dele, o ramo de uma aveleira (árvore que dá avelãs).
Chegando em casa, deu às enteadas o que haviam pedido e à Cinderela, o ramo de aveleira, sentando na varanda da casa para dar uma tragada. Ela agradeceu, levou o ramo para o túmulo da mãe, plantou-o ali e chorou tanto que suas lágrimas regaram o ramo. Deus estava entediado no céu, mas ao ouvir tamanha choradeira (escandalosa como a dos membros do Big Brother), deu uma olhada na TV Divina e viu a cena da menina chorando. Soltou um grito:
- Gabriel, traz uma ficha pra mim.
- De quem, dotô?
- Da Cinderela.
- Ih, dotô, conheço essa. É muito triste a história dela. O pessoal do Departamento dos Anjos já até escreveu uma petição para o senhor anos atrás para ajudar essa menina, mas o dotô estava mais preocupado em matar todo mundo com a Peste…
- Senhor Gabriel, o senhor está fazendo uma crítica ao meu trabalho?
- Que isso, dotô, tô não…
- Ah, bom. Pensei que mais alguém queria fazer companhia ao Cifinho lá embaixo. Isso que eu fiz chama-se “Controle do Aumento Populacional”. É uma questão estratégica a qual você não tem ainda a divindade devida para entender. E traz logo que eu te pedi antes que…
Deus olhou a ficha e se comoveu. Serviu até mesmo de inspiração para as novelas mexicanas que ele iria criar no futuro. Ele decidiu então fazer crescer a aveleira de imediato, Deus adora lançar mão de efeitos especiais (leia essa Bíblia, você verá). Resolveu se encarnar em um passarinho e desceu. A menina era muito religiosa, ia três vezes por dia para rezar no túmulo da mãe, à sombra da aveleira. E sempre o passarinho estava ali, para ouvir o que a menina pedia e atendê-la. Os pedidos eram comedidos, um colar com o retrato da mãe ali, um coroa de flores aqui. A menina ficou muito feliz, sabia que era um milagre, que a mãe dela estava certa. Uma pena não existirem mais árvores com essa, não é?
Teve um dia que ela pediu um convite para uma espécie de micareta que o rei ia promover no fim-de-semana, um Carnaval fora de época que iria durar três dias. Nessa micareta, o filho dele ia conhecer muitas mulheres e decidir com qual ele ia se casar. Hoje em dia, isso seria até um “Reality Show”. Haviam convidado todas as jovens bonitas do reino, mas não foi enviado um convite para a Cinderela.
Esse foi o pedido que mais deu trabalho para Deus. Teve que mexer na lista de convidados, subornar o organizador (“Quer continuar vivo, rapá?”), mas ele conseguiu que um convite para a Área VIP, entregue pessoalmente por um mensageiro do reino, chegasse às mãos da Cinderela.
Cinderela perguntou se podia ir, mas a resposta da madrasta e das irmãs foi única (parece que o pai não dava mesmo a mínima para a filha):
- Nem fudendo!
Cinderela obedeceu chorando, ajudando as vacas das irmãs a se arrumarem. Não desistindo, mais uma vez interpelou a madrasta, que respondeu:
- Como você quer ir à festa, sem roupas nem sapatos? Está bem, eu despejei nas cinzas do fogão um vaso cheio de lentilhas. Se você conseguir catá-las em duas horas, poderá ir.
A madrasta virou as costas com um risinho. “Fudi com ela”. Mas a menina correu para o quintal e chamou:
- Mansas pombinhas e rolinhas! Passarinhos do céu inteiro! Venham me ajudar a catar lentilhas! As boas vão para o tacho! As ruins para o seu papo!
Deus escutou tudo. Como ele estava puto com alguns anjos depois daquele papo do Gabriel, foi lá no departamento e mandou todo mundo virar passarinho e ajudar a moça:
- Mas Todo-Poderoso, hoje é dia de balanço, a gente tem um monte de relatório para arquivar, tem uma fila enorme no Purgatório para a gente…
- Não me interessa! Vocês não queriam ajudar a moça? Então, não vai ser só eu que meto a mão nessa bagaça! Agora chegou a hora de vocês trabalharem também.
Como ninguém estava a fim de andar de asinhas cortadas, todo mundo desceu e começou a catar as lentilhas. Não demorou nem uma hora, o vaso ficou cheio e a galera foi embora. Cinderela toda feliz foi mostrar o vaso para a madrasta, crente que agora ia poder ir na festa. A madrasta viu o vaso e pensou um palavrão bem grande, mas falou:
- Cinderela, você não vai na porra da festa. Você não tem roupa e não sabe dançar. Não vai a festa e acabou.
Como a menina começou a chorar, ela ficou temerosa que ela pudesse contar ao pai, que apesar de ser um frouxo, podia ficar irritado. Propôs então:
- Tá, Cinderela, se você conseguir catar dois vasos de lentilhas nas cinzas, eu deixo você ir.
“Agora essa magrelinha não vai dar conta!”, pensou enquanto ela mesma espalhava as lentilhas. Ela mal podia esperar…
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